Tratamento causal da Hemorróida


RESUMO: A partir da fisiopatologia da hemorróida, a qual tem como causa a “hipertensão portal” (a veia que entra no fígado chama-se Veia Porta), o autor desenvolveu um “tratamento causal” com a medicação antroposófica, cujo resultado tem demonstrado êxito em pacientes tratados com esta patologia varicosa retal. Pretende-se, neste trabalho, apresentar a argumentação que referenda esta tese, questionar a fisiologia do “fluxo contínuo” e propor um protocolo medicamentoso para esta afecção.

UNITERMOS: Hemorróida, varizes hemorroidais, medicamentos antroposóficos. Medicina antroposófica.

Todos os pacientes tratados nesta Clínica com hemorróidas tiveram recuperação total com o “tratamento causal” - a não ser um caso, que chegou à consulta com uma tumoração hemorroidal necrosada, do tamanho de um “limão grande”, sendo necessária a intervenção cirúrgica de urgência.

Foi um longo caminho para se chegar a este “tratamento causal”, após vários insucessos, em querer tratar apenas o processo varicoso evidente, como preconiza a visão acadêmica-indutiva. Enquanto se fixou nesse parâmetro externo, o autor não logrou êxito. Somente após se debruçar na teoria da fisiologia da circulação venosa (de retorno ascendente, em vasos avalvulados), que se pode denominar, segundo este autor, teoria do fluxo contínuo1, é que se pôde compreender que a “congestão portal hepática” estava na gênese dessa afecção.

Nesse sentido, pretende-se apresentar a argumentação que referenda esta tese, questionar a fisiologia do “fluxo contínuo ascendente” (como nota 1 no final do trabalho) e propor um protocolo medicamentoso para esta patologia. Serão citados três casos clínicos abaixo, como exemplos didáticos de procedimentos terapêuticos.



1. ETIOPATOGENIA


As hemorróidas são dilatações varicosas do plexo venoso hemorroidário. “Em sua etiopatogenia intervêm fatores constitucionais, o sedentarismo, a constipação, gravidezes e partos e, como causa patológica, a hipertensão porta"2 (grifos nossos). São classificadas em externas e internas. As externas aparecem como tumefações moles recobertas pela pele, arredondadas, de formato de uma “ervilha”, as quais são denominadas de “varizes anais”. Geralmente são assintomáticas, mas podem complicar, com formação de “ trombose hemorroidária externa ”, episódio esse, agudo e muito doloroso. As internas são flebectasias recobertas por mucosa e acessíveis a exploração digital como tumorações moles. A menos que se compliquem são geralmente assintomáticas. Quando há sintoma, a queixa clássica é de não ter esvaziado totalmente o reto após a defecação e/ou por pequenas perdas de sangue rutilante, regando o conteúdo fecal. Com o tempo tendem a prolapsar-se durante os esforços da evacuação, para depois reduzirem-se, com ajuda manual. Caso fiquem pendentes externamente, podem trombosar-se, surgindo a “ tromboflebite hemorroidária interna ”, que é um dos acidentes mais dolorosos da doença hemorroidária. O edema peri-inflamatório dificulta a redução manual e freqüentemente pode surgir necrose, como no caso excepcional citado acima, sendo necessário ressecá-las de urgência.


2. FISIOPATOLOGIA

 

A hemorróida interna é o motivo deste trabalho, pois corresponde a prolapso da túnica mucosa do reto, que contém as veias normalmente dilatadas do plexo venoso retal interno. Elas correspondem, localmente, a um rompimento das túnicas mucosas musculares, uma lâmina de músculo liso profundo à túnica mucosa. Caso sofram prolapso através do canal anal, serão comprimidas no pedículo, pelos músculos esfincterianos contraídos, impedindo o fluxo sangüíneo; como resultado, tenderão a sofrer estrangulamento, trombosar-se e necrosar-se.

Com relação ao sistema venoso nessa região3, existe rica anastomose entre as veias retais (superior, média e inferior) e os sistemas venosos portal e sistêmico. A veia retal superior drena para a veia mesentérica inferior, cujo diâmetro é mais fino que a veia mesentérica superior. As veias retais média e inferior drenam para a veia cava inferior.

Apesar de haver uma derivação venosa para a via sistêmica (v. cava), a causa do processo hemorroidário é imputada ao aumento anormal da pressão no sistema portal, o qual por ser destituído de válvulas, faz com que ocorra uma pressão endovenosa retrógrada. Ou seja, todo processo favorece à complicações (= hemorróidas). Vamos abordar essas causas:

1. O sangue venoso deve ascender do plexo retal até a veia porta, sem haver uma “bomba propulsora sangüínea” na região anal.

2. Os calibres das veias mesentérica inferior e retal superior, por serem mais finos, devem favorecer ao sistema de “capilaridade”, proporcionando a ascensão do sangue, numa visão mais mecânica.

3. No entanto, como a capilaridade só explica a ascensão do líquido a uma distância curta, não explica a elevação da seiva de uma árvore de grande porte, uma outra hipótese levantada pelo autor, tem a ver com a “teoria do fluxo contínuo”, a qual será comentada abaixo no rodapé, na nota número 1.

4. Além disso, pode-se aventar a hipótese de “pressão negativa venosa hepática”, a qual tem a ver com trabalho do fígado para “bombear” o sangue para veia cava inferior, gerando uma pressão negativa do fluxo que vem de baixo, da Veia Porta. Nesse caso, o fígado funcionaria como se fosse uma “bomba de sucção”, para o sangue que vem de baixo: do plexo hemorroidárico.

5. Caso surja um congestionamento hepático, por motivo principalmente digestivo (nas dispepsias fermentativa e putrefativa), congestionar-se-á também o sistema portal e como conseqüência retrógrada, o plexo hemorroidário irá se dilatar, fazendo surgir a hemorróida.


3. CLÍNICA


Geralmente o paciente adentra o consultório com a clássica queixa de desconforto anal, dor ao evacuar, pequeno mamilo em forma de “ervilha” e, às vezes, pequeno sangramento que regam as fezes. Estas queixas muitas vezes regridem e ao exame clínico não se visualiza nada de anormal na região anal. Caso se intensifiquem estas queixas, num processo longo e repetitivo, que se denomina de crônico, podem estas varizes hemorroidárias ser visualizadas ao exame, às vezes como pregas flácidas perianais. Em alguns casos há o relato de história familiar e ligado à alimentação copiosa, uso de temperos picantes, bebidas, etc.


4. TRATAMENTO


O tratamento convencional acadêmico4 das hemorróidas não complicadas preconiza: 1) higiene retal, com evacuação diária e escrupulosa limpeza. 2) introdução de pomadas ou supositórios adstringentes, antiinflamatórios e anti-sépticos. 3) ingestão de medicamentos “protetores” das veias à base de castanha da Índia, vitaminas, etc. E, nas complicações, o tratamento cirúrgico.

O tratamento antroposófico realizado nesta Clínica, parte do pressuposto fisiopatológico: “hipertensão portal”. Não se furtará o uso de medicamentos locais, os quais são apenas “coadjuvantes”. O que se intenta aqui é a verdadeira causa e ser congruente entre a teoria e a prática médica. E isso foi conseguido, com êxito em “quase todos” pacientes tratados com esta conduta, como se comentou. Nesse sentido este tratamento elegerá a congestão hepática como a causa primária desta patologia venosa. por isso serão prescritas “injeções para o fígado”, as quais são as mais importantes para o êxito do tratamento. Os remédios antroposóficos para a parede do vaso hemorroidário e para o metabolismo fazem parte como “coadjuvantes” do tratamento.


5. CASOS CLÍNICOS


Serão citados três casos clínicos, no sentido de servir de simples exemplos à conduta preconizada:

1. S.M.G.V. sexo feminino, nascimento em 2.9.36, casada, residente nesta cidade. Consulta em 13.9.05: Hemorróida com sangramento profuso , há um mês. PA 160x100, colesterol 297, triglicérides 160, glicose 112 e região anal sem anormalidades. Com o protocolo medicamentoso preconizado neste trabalho, recuperou-se rapidamente em uma semana e na última consulta em 21.2.06 (seis meses depois), não queixou mais da hemorróida. Recorrendo à ficha clínica, apresentou uma crise semelhante, mas sem sangramento, relatada na consulta de 26.11.04. Por apresentar outras queixas mais sérias, como uma arritmia cardíaca, o tratamento para hemorróida ficou relegado, naquela época, à segundo plano, retornando agora com manifestação mais contundente: sangramento por 1 mês. Mas com o tratamento preconizado, não apresenta mais queixas. Se houver necessidades, utilizar supositório de Stibium.

2. A.P.M. sexo masculino, nascimento em 9.12.31, casado, residente nesta cidade. 1a primeira consulta em 21.8.85: Hemorróida e ao evacuar apresenta pequeno sangramento. PA 140x90, colesterol 273, triglicérides 155. Tratado na época com o protocolo medicamentoso acima. 9 anos depois , em consulta de 6.8.94, retorno da queixa clássica de hemorróida. Repetido o mesmo procedimento medicamentoso. 10 anos depois , em consulta de 10.3.04, sem queixas dessa afecção. Atualmente assintomático.

3. A.M.F. sexo masculino, nascimento em 1.7.56, casado, residente nesta cidade. 1a consulta em 29.4.89: Hemorróida . PA 110x70, colesterol 195, triglicérides 200, ácido úrico 7,2. Tratamento com o protocolo medicamentoso antroposófico. Última consulta 15.7.02, quase três anos depois , sem queixas.


COMENTÁRIOS


Após várias frustrações em tratar as hemorróidas somente na sua manifestação externa, o autor procurou se basear na fisiopatologia da “hipertensão portal”, com o intuito de desenvolver um “tratamento causal”. Desenvolveu-se assim, um protocolo medicamentoso antroposófico, cujo resultado foi positivo. E para referendar essa tese, procurou-se levantar os argumentos para justificar a estase do fluxo sangüíneo ascendente.


SUMMARY


After several frustrating tries to treat hemorrhoids only by treating its external features, the author proposed a causal therapy based on physiopathology of “portal hypertension”. A protocol for anthroposophical treatment was developed and its positive results. Justification of ascending blood stasis was discussed.

KEY WORDS: Hemorrhoids, anorectal varices, anthroposophical medicine, anthroposophical remedies.


NOTAS


1. Teoria do Fluxo Contínuo (proposta do autor): Os argumentos : Não se deve formular a pergunta: quando começou o movimento? Essa pergunta não tem significado, porque o movimento não teve começo nem terá fim; o movimento é eterno. Mesmo se se pegar o coração humano, como exemplo, ele não começa a bater para movimentar o sangue, porque embriologicamente, antes de nascer o coração, o sangue já está em movimento e só depois de algum tempo, em um determinado lugar no embrião, é que surgirá o coração, como conseqüência do movimento sanguíneo e não o contrário. Portanto, primariamente é o sangue que movimenta o coração e só secundariamente, quando o sangue chega aos vasos de grande calibre (Veia Cava), ao cair no peso da gravidade, é que ele precisará de uma força de impulsão, para lhe dar novo empurrão, uma acelerada no sangue!

Portanto, o sangue se “movimenta” sozinho nos capilares, sem nenhuma propulsão, tanto que se se tirar, experimentalmente, o coração de um animal, o sangue sairá pela Veia Cava e fica “babando”, fluindo lentamente, mostrando que na periferia (capilares) o “sangue se move sozinho”. Seria mais certo dizer “fluidez”, movimento fluídico; e este não começou, mas existe ! Como a vida ; ela não começa, mas existe ! O mesmo se observa nas árvores de grande porte, com mais de vinte metros de altura, que levam a seiva até aos píncaros dos menores galhos, para nutrir as suas folhas. No entanto a “capilaridade física” não explica tudo, pois só se consegue subir o líquido a um metro de altura. Nas árvores, com milhões de capilares, a água se eleva “sem trabalho”, porque dentro do capilar, a água não tem peso; está liberada das forças da gravidade e é colocada sob a ação das forças da periferia ( forças vitais ou  etéricas ). O ponto de encontro em que o etérico (força da periferia) se encontra com a gravidade (força do centro da Terra) é o “capilar”.

Na planta só se têm capilares, porque a organização etérica necessita apenas de “superfície” para atuar. No animal têm-se vasos grossos (união de capilares) e vasos finos (capilares). São nestes capilares que existem os “fluxos vitais”, o que se pode denominar Teoria dos Fluxos contínuos , como propõe este autor. Saindo dos capilares, o sangue deveria parar. É preciso a interposição de uma “força muscular” (o coração), para dar uma “ acelerada ” no sangue, que começa a perder o movimento pelo peso da gravidade. Os músculos são usados pelos animais (que possuem alma ), para realizar o movimento.

A conclusão : Com esta argumentação dedutiva, procurou-se demonstrar que o mesmo processo ocorre na circulação venosa retal. O fluxo sangüíneo ascende, contra a gravidade, sem problema algum, sob a ação das forças vitais ou etéricas. Somente numa “hipertensão portal”, por motivos vários, como os citados no trabalho, é que haverá congestão retrógrada nas veias retais, provocando a hemorróida.

2. FARRERA e ROZMAN. Medicina interna . 9 ed. Rio de Janeiro : Koogan, 1979, v. 2, p.161.

3. MOORE, K.L e DALLEY, A.F. Anatomia orientada para a clínica . 4. ed. Rio de Janeiro : Koogan, 2001, p.354.

4. FARRERA e ROZMAN. Medicina interna . 9 ed. Rio de Janeiro : Koogan, 1979, v. 2, p.161.


BIBLIOGRAFIA


BOTT, V. Medicina antroposófica, uma ampliação da arte de curar , 2 ed. Juiz de Fora : ABR. 1984.

FARRERA e ROZMAN. Medicina interna . 9 ed. Rio de Janeiro : Koogan, 1979, v. 2.

GOODMAN e GILMAN, As Bases Farmacológicas da Terapêutica , 8 ed., Rio de janeiro : Koogan, 1991.

GUYTON & HALL, Tratado de Fisiologia Médica , 10 ed., Rio de Janeiro : Koogan, 2002.

HARRISON, Medicina Interna , 13 ed. México : Interamericana, 1995, v. 2.

HUSEMANN, F. e WOLFF, O. A imagem do homem como base da arte médica . São Paulo : Resenha Universitária, 1987. v. I, II e III.

MARQUES, A.J. Repensar a Ciência . Rio Branco : Juiz de Fora. 1996.

MOORE, K.L e DALLEY, A.F. Anatomia orientada para a clínica. 4. ed. Rio de Janeiro : Koogan, 2001.

 

Dr. Antonio Marques