Esse misterioso cérebro

Como funciona fisiologicamente o cérebro humano? Ele ‘cria imagens’ e através destas podemos ver nosso pensamento, em termos de recordação e imaginação. Como se pode entender esse processo de criar imagens pensamentais? Vamos analisar o olho, uma parte do cérebro que se projetou para fora e que praticamente lida com imagens vindas do exterior. Na formação embrionária do olho, a parte anterior do cérebro forma o nervo óptico, que caminha para frente. Após o quiasma óptico, ele se dilata anteriormente para formar o fundo arredondado do olho, que será depois a retina, com seus cones e bastonetes. Do lado exterior, da epiderme do embrião, de fora para dentro, num processo de escavação, vem ao encontro da retina o broto do futuro cristalino. Entre estes dois processos polares, existe sangue dentro do olho embrionário; este sangue precisará se retrair, para permitir que o globo ocular fique limpo e transparente, para deixar passar a luz exterior. Portanto, dessa maneira o olho se transforma quase numa máquina fotográfica.

 

Pela ‘evidência’ se constata que ao se fixar o olhar num foco luminoso durante alguns minutos, esse processo ‘queima’ a retina ou desgasta a substância química ocular, chamada de púrpura visual ou rodopsina. Quando a púrpura visual é exposta à luz, tem lugar uma mudança química e a cor dos bastonetes e dos cones desaparece, gerando com isso um estímulo elétrico, que é passado à fibra nervosa. Por isso se precisa fechar os olhos ou descansar a vista. Só que ocorre um fenômeno ‘não evidente’, que tem a ver com a recuperação do olho, que nasce de dentro do sangue, como processo revitalizante e recuperador. Por exemplo: se focalizo durante um certo tempo uma luz amarela num fundo branco, depois que se retira o foco amarelo, o olho ‘cria’ outra cor compensatória ou complementar, que no caso será o azul tênue, etérico. Portanto existe uma polaridade entre nervo e sangue. O primeiro desgasta e o segundo recupera, revitaliza. O que existe por detrás dessa polaridade?

Assim como a parte anterior do nervo óptico se projeta para frente para formar a retina, que serve para colher as imagens exteriores, assim o cérebro todo existe para colher as imagens formadas na mente, por ocasião principalmente quando se desenvolvem a memória e a imaginação (fantasia). Nesse sentido, como conclusão, o cérebro todo foi feito para lidar com imagens (tanto as exteriores como as interiores), sendo que as imagens interiorizadas dependem da parte nobre da alma, chamada de ego, que Platão denominou de logistikón. Ao se recordar um fato na vida, busca-se no seu depósito de memória, a imagem guardada; ela é colocada de novo no cérebro para poder vê-la. O mesmo se pode dizer da imaginação (fantasia): cria-se uma imagem dentro do cérebro para com ela satisfazer certos desejos anímicos. O mais intrigante nisso tudo é que Platão subdivide essa parte superior da alma (logistikón ou ego) em: diánoia, dóxa e phantasía. Dessa trindade egóica (pensamental), a diánoia desenvolve a reflexão ou o pensamento téchnai (o pensar propriamente dito), a phantasía é a parte responsável pela imaginação, pela criação de imagens cerebrais; e entre as duas formas, a dóxa é responsável pela opinião ou julgamento. Portanto, a phantasía cria a imagem cerebral, a dóxa serve para avaliar se há procedido de maneira correta ou para corrigir a imagem criada, como auto-julgamento do pensamento; e a parte mais elevada da alma nobre (diánoia) faz a ligação com o divino, com o espírito (noûs ou self).

Como se pode entender o pensamento ou a consciência do pensar? É preciso recorrer a Aristóteles para explicar os três processos do pensar: Ao observar um objeto, o sujeito forma dentro do cérebro a imagem do próprio objeto, através do noûs pathetikós (psiquê ou alma), o entendimento possível ou passivo. Só é factível extrair daí a ideia, através da interferência especial do noûs poietikós (espírito), o entendimento real ou ativo. Ocorre o seguinte: O espírito "atua como luz", segundo o próprio Aristóteles, ‘iluminando espiritualmente a imagem’ formada no cérebro pela alma, para ser compreendida pelo espírito. Como ocorre isso? Através da interação entre nervo e sangue a nível cerebral. Vamos aos fatos:

Pela microscopia eletrônica pode-se ver no cérebro capilares sangüíneos sendo envolvidos por pés vasculares de astrócitos e de outras células nervosas. O que acontece é o seguinte: A alma capta as informações via nervo e inscreve-se no sangue, morada do espírito humano. Como se processa isso? Através do ácido úrico presente no sangue; este irá atapetar os pés vasculares das células nervosas (astrócitos, etc.) criando assim uma ‘tela úrica’, através da qual a alma irá impregnar a sua imagem via nervo. Como se sabe, o ácido úrico cristaliza e por isso se diz ‘estou cristalizando uma ideia’. Não que ele chegue à cristalização plena, o que ocorre somente nas extremidades do paciente gotoso. O ácido úrico se origina das forças do pólo cefálico, como demonstram sua pouca solubilidade e sua boa propriedade de cristalização. O pensamento, que é uma atividade catabolizante cerebral desgasta o sistema nervoso, precisa do sono para recuperar o desgaste psíquico do dia. Pode-se dizer que se precisa do ácido úrico para desenvolver o pensamento cerebral.

Como se pode entender a participação do ácido úrico no desenvolvimento do pensar? 1º) O Dr. Thomas Sydenham (1624 – 1689) foi o primeiro clínico que relacionou a Gota (reumatismo com depósito de ácido úrico nas articulações) com o pensar linear, cartesiano, mundano; ou seja, o gotoso é aquele que não sabe utilizar seu ácido úrico para o pensar dialético, filosofal (por isso ele precipita nas extremidades como tofos úricos). 2º) Quimicamente o ácido úrico é semelhante com a cafeína, mostrando seu caráter estimulante sobre a química do pensar (o café estimula o pensar). 3º) E o contrário, os entorpecentes centrais (barbitúricos e benzodiazepínicos) são compostos semelhantes também com o ácido úrico, mas só que têm Radicais acoplados à fórmula (Cloro, Bromo, Flúor, etc) que anestesiam o cérebro. Como eles agem? Pela semelhança bioquímica, também atapetam os pés vasculares das células nervosas, mas com intuito de embaçar, obscurecer a imagem que o nervo traz (por isso provoca sono e demência). 

Portanto, de tudo que foi exposto, alguns detalhes precisam ser frisados: o nervo é instrumento da alma e no cérebro a alma realiza três processos: cria imagens, corrige as imagens e transmite as imagens ao espírito. Por isso Platão foi magnânimo ao nomear essas três qualidades do pensar, cujo objetivo é fazer a ‘ponte’ entre a alma e o espírito. O primeiro age através dos nervos e o segundo através do sangue. Nervo e sangue; alma e espírito. A alma capta as informações através dos órgãos sensoriais e as transmite via nervo ao espírito que mora no sangue. Como o espírito vê as imagens? Ele utiliza o ácido úrico, como tela úrica, nos pés vasculares dos astrócitos (podócitos) e outras células cerebrais; como o ‘espírito é luz’, ilumina as imagens anímicas impregnadas na tela úrica. Assim o espírito utiliza a alma e o corpo físico, para seu crescimento espiritual.  

 

Dr. Antonio Marques