Síndrome Tripolar

Este trabalho visa apresentar a “Síndrome Tripolar”, para justificar os quadros clínicos psicossomáticos em que apresentam simultaneamente “ansiedade, depressão e pânico”. Serão levantados os argumentos científicos, filosóficos e antroposóficos, no sentido de se compreender os elementos causais psico-fisio-patológicos. Em posse destes conhecimentos, com condutas médico-terapêuticas antroposóficas condizentes, é possível obter a cura para estes quadros clínicos.

 

1. APRESENTAÇÃO

Infelizmente hoje em dia não se vê mais o homem como ser humano. Ele virou uma máquina computadorizada, com circuitos integrados numa “rede de linhas excitatórias e inibitórias de projeção (feedforward) e de retroação (feedback)” (Popper), embutidos no poderoso e misterioso cérebro. Não se vê mais a atuação da psiquê (alma) no corpo. Aliás, nem psiquê existe mais. Tudo é matéria. Como fica o tratamento? Apenas reflete o modo mecanicista de ver o ser humano: um conserto que se impõe a uma máquina. Nesse sentido os efeitos colaterais fazem parte dos melhores medicamentos. Assim foi descoberto, em 1864, por von Bayer, o Barbitúrico (associação de ácido malônico com uréia). É um tranqüilizante ou ansiolítico, capaz de aliviar os estados de ansiedade e tensões. Depois vieram os outros anti-depressivos1, com atuações variadas, no sentido de controlar os sintomas da depressão.

O mesmo se pode dizer daqueles que acreditam que deva existir uma “mente” (como algo meio “energético”) além do corpo físico. Para estes, essa visão apoucada representa o reflexo gerado pela confusão entre “alma e espírito”. Isso remonta ao Concílio de Constantinopla, de 869, o qual “decretou” que, a partir daquela data, o “espírito” não existiria mais; apenas “alma e corpo” (mente e corpo). E, recentemente a Ciência (através da Associação Psicanalítica Americana) “decretou” que a psiquê (a alma) não existe; apenas “corpo físico”. Assim a trindade (caráter ternário ou trimembrado: corpo, alma e espírito) foi “reduzida” à manifestação puramente físico-química.

Este trabalho refuta a visão simplista do realismo ingênuo da Ciência Indutiva experimental, para o qual o homem é um amontoado de células, nervos e músculos e que tudo se resume em estímulos elétricos nervosos. Se assim fosse, seria um caos; porquê, quem coordenaria as reações químicas dentro do corpo? A não ser que a química tivesse capacidade para chorar, sentir ou pensar... Hoje a “causa é jogada no transcendente” (Kant), na visão simplória que se tem sobre o ser humano. Nesse sentido serão apresentados os argumentos que referendarão os três patamares da Psicossomática: consciente, subconsciente e inconsciente (ou pensar, sentir e atuar), que se consubstanciarão nas três psicopatologias: Ansiedade, Depressão e Pânico. Por isso a razão desta terminologia: “Síndrome Tripolar”. Objetiva-se, neste trabalho, resgatar a “imagem global” do ser humano, cuja finalidade é o tratamento “causal”, que traga resolubilidade para estes quadros psicossomáticos. Não se negam as atitudes paliativas sintomáticas acadêmicas, como recurso temporário emergencial, mas deve-se buscar sempre o “tratamento fisiológico causal”, para uma cura real (e não semi-cura).

A esse novo patamar de conhecimento se denomina de Ciência Dedutiva goethiana, a qual parte da “observação”, para em seguida “intelectualizar” os dados do problema ou o quadro semiológico, cujo objetivo é chegar à “tese” (diagnóstico ou idéia do fenômeno). Estes são os três passos científicos necessários para se adentrar nos elementos causais ou nos “mistérios” que se escondem por detrás da natureza ou do ser humano. Portanto, “dedutivamente”, existe uma instância superior que apreende e responde diretamente no corpo, na musculatura, nas formas de sentimentos ou de pensamentos. A percepção é captada pelo “nervo sensitivo” e levada ao Sistema Nervoso Central (SNC), para ser “percebida” pela psique (ou alma), através da “substância química”. É esta, então, que se deve estudar, pois ao se conhecer mais profundamente a substância química, se poderá começar a entender, “dedutivamente”, como a alma atua, como o elemento causal atua no corpo. Assim se formulam as hipóteses científicas dedutiva, nesta nova “Ciência que adentra o reino das causas”, como diria Aristóteles, pai da Lógica e da Ciência.

 

2. ARGUMENTOS CIENTÍFICOS

A ciência atual se fixa na substância; mas esta, como o nome diz: “substare” (sub + estar) traduz o que se encontra a nível inferior para atuação do elemento causal, que vem de cima. A adrenalina, por exemplo, é encontrada na região medular das glândulas supra-renais. Esse órgão apresenta, via “sistema nervoso simpático”, a ligação com o SNC, cujos impulsos são canalizados ao despertar (anímico), ao catabolismo, à excitação geral, à contração, à taquicardia e ao aumento do metabolismo basal. Isso mostra uma dinâmica da psique (alma) mergulhar profundamente para dentro do corpo. Um susto ou choque, o impulso anímico penetra via sistema nervoso (simpático) até a medula supra-renal, com liberação de adrenalina o que, em caso extremo, pode até “matar”, por espasmo exagerado na esfera cardíaca, sede da alma. Como se está vendo, a substância química leva a alma a atuar a partir do seu centro fisiológico (o coração). Por isso ela é liberada principalmente nos “estresses” e, como medicamento, tem indicação terapêutica nas crises asmáticas e nas reações alérgicas graves (choque anafilático, edema de glote), quando se precisa que a alma retome a direção corporal rapidamente, fazendo com que centralize as funções a partir do seu centro fisiológico (o coração)

Outra substância que tem essa mesma atuação é a cafeína (café): Estimula o SNC e o coração. O ácido úrico, da mesma família que a cafeína (vide no desenho abaixo as semelhanças químicas), representa a fase intermediária do processo de catabolismo da proteína, a qual deveria chegar até à “uréia”. Esta é solúvel, ao passo que o ácido úrico se cristaliza. O homem elimina pela urina o ácido úrico junto com a uréia, mas nas aves e nos répteis, ocorre a eliminação pura do ácido úrico como produto final da proteína. Especialmente nas aves, as forças estruturantes partem do pólo cefálico, como se pode muito bem observar: são ariscas, espertas, excitadas, uma visão prodigiosa e, em contrapartida, um metabolismo péssimo. Isso tudo fala a favor da hipertrofia do pólo cerebral e tem a ver com a presença do ácido úrico. Esse ácido se origina das forças do pólo cefálico, como demonstram sua pouca solubilidade e sua boa propriedade de cristalização. Portanto, o pensamento, que é uma atividade catabolizante cerebral, precisa do ácido úrico para desenvolver o pensamento cerebral. Como se pode afirmar isso? 1) O Dr. Sydenham, o primeiro clínico a estudar a Gota (reumatismo com depósito de ácido úrico nas articulações), relacionou essa patologia com o pensar linear, pragmático, embotado. 2) Por um “caminho dedutivo indireto”, observa-se que o anestésico Barbitúrico criado por von Bayer, em 1864, citado acima, baseava-se na associação da “uréia” com o ácido malônico. A uréia é um catabólito do ácido úrico, como se afirmou e o “esqueleto” da fórmula do “barbitúrico” é semelhante ao ácido úrico e à cafeína, só que com 2 nitrogênios, como se pode ver no desenho. O mesmo se pode dizer dos tranqüilizantes benzodiazepínicos, também com 2 nitrogênios. 3o) Conclusão: Já que os “entorpecentes” competem com os “receptores cerebrais” do pensar, pois embotam a mente, uma substância similar deve atuar como estimulante ou como substrato do pensar. Essa química é o “ácido úrico”.

Agora se pode formular uma “hipótese” (exposta no livro Repensar a Ciência, do mesmo autor): Sabe-se que a substância química atua corporalmente em dosagem milesimal (microdosagem). Seria como uma “fina e sutil” camada que embebe a “placa motora” do músculo ou o cérebro. Talvez a substância se transubstancie, como numa dosagem homeopática, “sobrenadando” o seu órgão efetor, para a interação com a alma. A dinamização (dos remédios homeopáticos e antroposóficos) objetiva isso: liberar “a energia” (o espiritual) contida na matéria. O mesmo deve acontecer com o ácido úrico no cérebro, na elaboração do pensamento. Uma camada “muito sutil” dessa substância, como uma película transubstanciada deve embeber o cérebro, onde a alma inscreve os seus “desejos” pensamentais. Primeiramente, através dos nervos chegam as informações internas e externas, como numa “escala” musical, onde cada tom tem a sua específica área cerebral, para a percepção anímica. Secundariamente, para uma resposta ou para a formação de um pensamento téchnai (técnico, como Platão nomeia), ocorre o que se falou: a alma inscreve nessa película “plasmável úrica”, como numa tela de “cristal líquido”, como nas televisões planas. Por isso se diz: “estou cristalizando uma idéia”. Não que o ácido úrico chegue à cristalização plena, mas como uma transubstanciação do processo cristalizante no cérebro. Nessa matéria sutil e transubstanciada é que deve ser plasmado o pensamento.

 

 

Portanto, por detrás de cada substância existem as “atividades” anímica e espiritual. Enquanto algumas substâncias favorecem a “encarnação” (tonar-se carne) da alma, outras substâncias a impedem de atuar no corpo. Por isso o profissional médico tem obrigação de conhecer, além da clínica, da fisiopatologia, da farmacologia, da química, a realidade anímica-espiritual.

 

3. ARGUMENTOS FILOSÓFICOS

Vamos buscar primeiramente a “sabedoria” (Sophia) que emana como eco da Philosophia, para secundariamente casarmos com os conhecimentos científicos atuais, a fim de chegarmos a uma postura inédita em Ciência. Para Platão (Timeu 89)3, a psykhé (alma) é subdividida em três partes (tría trichê): A parte superior (logistikón), “imortal”, inteligível (noêto), indissolúvel, de forma una e mais próxima do divino, do Noûs (espírito), tem a ver com o intelecto téchnai (técnico). Abaixo dessa, intermediária, a parte “mortal” (thymoeides ou timocrática) e “alógica”, que recebe seus impulsos do “logistikón”, como imitação dos preceitos, como um “cão que obedece fielmente ao seu dono”, tem a ver com a coragem, o sentimento e o senso de dever. A parte mais inferior (epithymétikón ou epitimética) é igualmente “mortal”, não tem lógica, pois não opina, apenas recebe influência externa de sensação, prazer e desejo. Está relacionada ao baixo-ventre (metabolismo, movimento corporal, sexualidade, “id”). Para se ter uma correspondência moderna, a alma é trimembrada: “ego, sentimento e id” ou “consciente, subconsciente e inconsciente” ou “pensamento, sentimento e atuação”.

Para Platão, a alma realiza todos os processos fisiológicos dentro da corporeidade, pois em verdade ela sustenta o corpo. “O corpo é posto em movimento pela alma”, já dizia também Aristóteles (De Anima 406b)4. Um corte na mão ou uma impressão recebida sofre primeiramente uma percepção na “alma mortal”, que transforma a impressão em qualidade a ser arrazoada pela “alma imortal, inteligível”. Somente então, a percepção tornada sensação será nomeada de prazerosa ou dolorosa. “Quando uma impressão, mesmo breve, age sobre ela (a alma), suas diferentes partes se lhe transmitem em círculo. Cada uma age semelhantemente sobre a outra, até que a impressão chegue à parte inteligente da alma e lhe manifeste a qualidade do objeto que a produziu” (Timeu 64)5. Apesar de sofrer todo tipo de desordens (sensações, desejos, prazeres, pensamentos triviais, etc), continua “ela mesma”. Isso ocorre porque está ao redor de um centro imutável, o Noûs, o espírito, o “Deus em nós”.

Como se comentou, a alma é trina: logistikón, timocrática e epitimética (como diriam os gregos antigos). A alma é una, mas trina. Ou a trindade na unidade. Ela é uma só, mas se subdivide ou desmembra-se em três. Como um corpo com três membros, cada parte tendo uma missão. Por isso se diz “trimembrada”. A parte superior ou ego tem a ver com os pensamentos triviais, do dia-a-dia. Como só se utiliza 1/10 do cérebro para o pensar, isso corresponde à atuação do Ego na geração dos pensamentos. Ou seja, utiliza-se o mínimo da alma para o pensar. E os 9/10 da atuação da alma? Esta grande parte corresponde à influência anímica nas esferas rítmica e metabólico-locomotora.

O espírito é, nesse caso, o centro do ser humano, que galvaniza a alma em torno de si. Pode-se dizer: a “consciência de sua consciência” ou, o que gera a “auto-consciência”. Assim Aristóteles aponta para essa realidade superior: “A natureza e essência do sumo princípio é espírito imaterial, ato puro, vida serena e bem aventurada, livre de toda interrupção. (...) É uma essência eterna e imóvel que transcende todo o perceptível pelos sentidos. Não pode ter magnitude ou extensão alguma. Unidade indivisível, impassível, imutável. (...) É o sumo princípio de Deus. (...) Isto é o Noûs. O Noûs não é tão somente uma coisa eterna e mais perfeita de todas as coisas: o ato do pensamento é vida” (Metafísica 1072b)6. Como “Deus e eu somos um”, como diz Aristóteles, meu Eu é uma chispa de Deus. Nesse sentido o espírito (Noûs dos gregos ou Self de Jung, ou simplesmente Eu) trabalha a partir da essência humana, se apodera dos “desejos anímicos” e se torna uno com a alma. Precisa-se exemplificar melhor. Uma luva em cima da mesa fica imóvel. Ao ser calçada, ela adquire vida e se mexe. Nesse caso, já não se fala nem na luva nem na mão, mas na “mão na luva” (corpo e alma). Mas não dependem somente desses dois elementos os movimentos que se quer dar. Para isso é preciso ainda uma “mente” que os coordene. Portanto o ser humano é composto de corpo, alma e espírito. Ou como diriam os antigos filósofos gregos: corpo, psykhé e Noûs.

Goethe já dizia: “Fisiologia é o conjunto orgânico sob domínio do Espírito”7. Quanta sabedoria e como se distancia do pensamento atual! Por detrás da alma, a qual apresenta suas três características policromáticas, permeia o espírito. Mas “o espírito é exterior e enraizado na alma”, como diriam Platão e Aristóteles. Eles ainda complementam: “o espírito vem de fora e se imiscui na alma”. Nessa situação está o homem, dentro desse conjunto “espiritual-psico-somático”.

 

4. PSICOSSOMÁTICA (PSICO + SOMA)

Para a antiga medicina grega, a “melancolia” (depressão) se manifesta na incapacidade da psykhé (alma) permear o metabolismo biliar. Em decorrência disso a “bile fica preta” (melan=preto e cole=bile). Ou seja, um sofrimento anímico (da alma) prolongado, leva a uma retração (saída) da alma da esfera bíleo-digestiva. A alma se recolhe em si mesma, se fecha dentro de si. Ou seja, primeiro ela se retrai da esfera digestiva (dessomatização) e se projeta para fora do corpo, o que se denomina de “ansiedade”. Portanto a primeira manifestação psicossomática chama-se “ansiedade” e ocorre a partir da saída da alma da esfera metabólica. Essa saída corresponde à parte da alma, chamada “inconsciente”, que se aloja no metabolismo. Caso essa tendência se hipertrofia, levando essa parte da alma a se projetar mais para fora, chama-se “raiva ou ódio”, a primeira manifestação autenticamente humana (com pincelada animalesca, típica do baixo ventre, sede dos instintos e da sexualidade). Pode ocorrer que a alma não desenvolva a raiva (para fora), mas se projeta para as esferas média e superior do corpo; nesse caso chama-se somatização. Ou seja essa parte da alma vegetativa (inconsciente) se retrai do metabolismo e se aloja na parte média do corpo. Ocorrem, portanto, dois problemas: o metabolismo fica lento, moroso, com a digestão prejudicada, o que pode levar à longo prazo à gastrite, úlcera, colite, diverticulite e câncer. Afinal a “alma é o agente motor” do corpo e sua ausência nessa esfera, o metabolismo fica lento. E, na parte superior do corpo, leva à “somatizações”  (espasmos): no coração (arritmia, taquicardia e aumento da pressão arterial), no pulmão (dispnéia), na cabeça (labirintite, cefaléia, etc.), nos músculos (contraturas, rubor facial, fibromialgia, etc.).

Ao se intensificar essa tendência (o abandono anímico inconsciente da esfera metabólica e como conseqüência a concentração dessa parte da alma nas regiões média e superior do corpo), ocorrerão o ensimesmar-se no coração vazio de conteúdo, na tristeza dos sentimentos, na cabeça embotada e na apatia para atuação. Isso se manifesta como fuga do mundo, desinteresse e embotamento mental. Nesse caso tanto podem ocorrer manifestações “psicossomáticas”, sem muita repercussão corporal (ansiedade, depressão e pânico), como também alterações corporais evidentes, geralmente comprovadas ao longo do tempo, através dos exames complementares (elevação do colesterol, dos triglicérides, hiperglicemia, etc.). São duas as conseqüências, como se falou: Na esfera de baixo do diafragma: gastrite, colite, diverticulite, etc. (dessomatização dessa parte da alma no metabolismo) e na esfera de cima: taquicardia, hipertensão (somatização dessa parte da alma inconsciente que subiu para esfera do coração), dispnéia, asma (somatização dessa parte da alma no pulmão) e cefaléia, enxaqueca, pensamentos ruins e embaralhados (somatização dessa parte da alma na cabeça).

Portanto, essas patologias psicossomáticas como muitas patologias orgânicas, têm como causa o recolhimento psíquico em si mesmo, o ensimesmar-se na tristeza profunda e, como causa primeira: o retrair-se da esfera metabólico-digestiva. Secundariamente ocorrem as “somatizações” em vários níveis orgânicos superiores. Caso esse processo se intensifique ao longo do tempo, ocorrem processos progressivos das manifestações psicossomáticas, passando pela ansiedade, pela depressão e até chegar ao pânico.

 

 5. ANSIEDADE – DEPRESSÃO – PÂNICO

Cada vez mais se apresentam na clínica diária essas três manifestações psicossomáticas. Destas três, a primeira que ocorre é a “ansiedade”. A segunda é a “depressão” e por último o “pânico”. Por quê nessa ordem? Simplesmente porque ocorre em primeiro lugar a “dessomatização” na esfera metabólica-digestiva. Se acontecesse a dessomatização na esfera cerebral ocorreria o desmaio, perda dos sentidos. Essa sintomatologia não faz parte deste quadro. Ou seja, a saída da alma inconsciente da esfera metabólica faz com ela se projete para fora, para o mundo ou contra o outro. Denomina-se “ansiedade”, como se citou acima. Em contrapartida o Ego (alma consciente centrada na cabeça) não consegue exercer domínio naquela esfera do baixo ventre e assiste a tudo com grande apreensão e ansiedade. Caso se extrapole nessa “saída”, ocorrerão raiva e ódio, como se afirmou.

Caso ocorra a saída da alma sensitiva da esfera do sistema rítmico (coração – pulmão) manifestar-se-á a Depressão. Por isso o paciente geralmente se refere a essa sintomatologia colocando a mão sobre o peito, sede da alma fisiológica. 

Como última instância da saída da alma do corpo, se denomina de “pânico”, o qual corresponde a saída da alma da esfera do sistema neuro-sensorial. Por quê ocorre o pânico? Porque o Eu não consegue dar uma diretriz em sua vida, em sua alma. Não existe saída real da alma na esfera da cabeça, como se poderia deduzir, como conseqüência óbvia do que foi falado atrás. Se isso acontecesse, como se comentou, viria o desmaio e a perda da consciência.

Como se pode bem observar, existem dois tipos de “somatizações”, advindas das duas “dessomatizações” pré-existentes, remanescentes dos pólos orgânicos: 1) A dessomatização da alma inconsciente da esfera metabólica, leva primeiramente à ansiedade, raiva e ódio. Caso a alma migre para esfera média do corpo, irá provocar somatizações, com taquicardia e aumento da pressão arterial. 2) A dessomatização da alma consciente da esfera cerebral, leva primeiramente à tonteira, desmaio, etc. e depois ao Pânico.

No fundo, toda doença é um processo de iniciação espiritual errado. Inclusive estas psicopatologias mostram o processo da alma que quer se desligar do corpo; seja pela saudade do mundo espiritual pré-natal ou de épocas anteriores de vida, ou não vê futuro no seu caminho atual de vida. Faz então, uma retração anímica (ensimesmar-se, dessomatizar-se), no sentido de buscar consciência reflexiva (ansiedade e depressão). Caso não obtenha êxito, para não dessomatizar da esfera neurossensorial, mergulha e se aprisiona no sistema rítmico (coração e pulmão), provocando sintomatologias nessa esfera. Não deixa de ser um caminho necessário, para auto-cura anímica, pois somente através “das doenças e do mal” consegue-se evoluir.

 

6. TERAPIAS ANTROPOSÓFICAS

Na ansiedade estão contra-indicadas a Fluoxetina e similares, pois como se pode depreender através de sua composição química (vide nota 1), pode inibir o nervo e o cérebro, o que complicará mais o tratamento. Afinal o problema não é o cérebro (o culpado primário é a alma inconsciente no metabolismo). O uso de anti-depressivos, para a depressão e o pânico, agem cortando a parte nobre do pensar e embotam a mente, fazendo com que a cura fique mais distante de ser alcançada. Mas deve-se pensar nessas condutas terapêuticas paliativas em caso de sintomatologia grave, pelo menos para início do tratamento, sob orientação médica.

Como conduta causal, na ansiedade deve-se reforçar o “egotismo” (o ego) com estas explicações durante a consulta e trazer a parte da alma que lida com o metabolismo (o inconsciente), para essa área de atuação, através da medicação causal antroposófica. O mesmo se pode dizer da depressão e do pânico, pois são gradações da mesma problemática. Como a alma se imiscui no corpo através das substâncias químicas, através destas consegue-se harmonizar a alma nessas esferas. Por isso o tratamento tem que ser inicialmente medicamentoso.

Com relação à medicação, em primeiro lugar deve-se objetivar fortificar o cérebro, para que possa pensar melhor (entorpecentes cerebrais só em casos graves). Em segundo lugar é preciso acalmar a alma excitada, com “remédios calmantes antroposóficos”, para atuação no sistema rítmico (esfera do sentimento). Em terceiro lugar é preciso ativar a fisiologia digestiva, não só com medicação amarga, mas indicar à nutricionista antroposófica para orientação a uma alimentação rica em cereais, verduras, frutas, etc. Evitar os doces, pois fermentam muito (a presença do álcool -0H expulsa a alma inconsciente do metabolismo = o bêbado fica “sem chão”).

Com relação às Terapias Complementares, a Euritmia Curativa tem seu lugar de destaque, pois através dos gestos eurítmicos, “harmoniza a alma dentro do corpo”. O mesmo se pode dizer da prática de esportes, ginásticas, etc. O Psicólogo Antroposófico tem uma tarefa importante, para reafirmar estes propósitos apontados aqui, tanto nas avaliações psicoterápicas, como através da “Avaliação Biográfica e nos Sete Passos”, em que o paciente descortina o fluir da sua vida e os “nós da vida” (as crises), no sentido de compreender sua problemática existencial e “perdoar” a si mesmo. Para perdoar a sim mesmo, só ocorre se se elevar acima do nível da alma. Como a alma é pecadora, por estar subordinada aos impulsos dos “desejos”; e como são três partes da alma, também são três desejos: pensamental, sentimental e carnal, nas três esferas nomeadas: cabeça, tronco e abdome, somente o espírito (Eu) pode olhar a alma de cima (hierarquicamente) e perdoá-la. A leitura dos livros antroposóficos (de Rudolf Steiner) fornece um caminho seguro na conscientização destas forças presentes no homem.

Além disso, o tratamento causal deve passar pelo “Diagnóstico Psicossomático por meio da Pintura”8, desenvolvido nesta Clínica, através do qual o paciente irá mostrar a sua complexidade anímica, através das cores.

 

7. CASOS CLÍNICOS

 

Serão apresentados três casos clínicos da “Síndrome Tripolar”, como exemplos clínicos que se apresentam cada vez mais nos consultórios, com objetivo apenas ilustrativo.

 

1. Clínica

L.P.B. solteira, nascida em 7.7.74, residente em Petrópolis (RJ). 1ª consulta em 20.12.08: Relata que tudo começou após o falecimento do pai, há 7 anos, quando tinha 28 anos. Os sintomas eram leves, mas oscilavam entre ansiedade, depressão e irritação (raiva). Há três anos veio mais persistentemente a depressão, exigindo medicação psiquiátrica. Emagreceu, apresentava cansaço matinal, insônia, choro, inapetência e raiva. Depois o psiquiatra nomeou de ansiedade; e, mais recentemente, apresenta sensações de pânico, manifestando-se nas formas de taquicardia e medos variados (fobias). A medicação acadêmica: Rivotril e Pondera. Medicação antroposófica: esquema acima.

2ª consulta em 21.5.09: a melhora foi gradativa, o que permitiu retirar a medicação acadêmica, sob supervisão do psiquiatra. Chegou inclusive a suspender a medicação antroposófica, mas o medo a vez retornar aos medicamentos antroposóficos. Atualmente só toma estes medicamentos causais. Está mais confiante e destemida para enfrentar os problemas anímicos, graças a estes comentários apresentados durante a consulta.

 

2 Clínica

C.M.P. divorciada, comerciante, nascida em 17.7.59, residente de Lafayette (MG). 1ª consulta, em 20.5.09: Apresenta Ansiedade, depressão e Pânico. Anemia, gastrite, fibromialgia, sede, piora na fase menstrual, com TPM, apatia, choro, Sensação de pré-cordialgia e de estar “endurecida, rígida”. Uso de Sociam, Omeprazol, Paroxetina, Clonazepan. Cirugia prévia de nódulos benignos nas mamas. US: mamas com cistos, miomas intra-murais e nefrolitíase. Endoscopia: erosões gástricas e Hp+. Exame de sangue: Ferritina 7 (normal de 10 a 200). Ao exame clínico: PA 120 x 80, anel esclerótico na íris e fígado palpável (1 dedo) na inspiração profunda. Receita: o esquema acima.

 

3 Clínica

M.G.S. casada, aposentado, nascida em 16.4.56, residente nesta cidade. 1a consulta em 21.5.09: por causa do ex-marido alcoólatra, apresenta ansiedade, depressão e pânico. Diabetes e gastrite. Cirurgia prévia: colecistectomia. Exame de sangue: Glicose 197. História familiar: pais diabéticos. Medicação: insulina e omeprazol. 

Foi aconselhada ir retirando o omeprazol, para não impedir a digestão, importante fator na cura desta patologia. Receita: o esquema acima.

 

1. COMENTÁRIOS

Este trabalho visa apresentar a “Síndrome Tripolar”, para justificar “ansiedade, depressão e pânico” no mesmo quadro clínico psicossomático. Essa trindade (ou trimembração) reflete as manifestações anímicas, quando estas se desmembram (se retraem ou dessomatizam) dos sistemas “metabólico, rítmico e neuro-sensorial”, respectivamente, podendo provocar somatizações em esferas superiores.

Somente através do estudo aprofundado da psique humana e sua relação com o corpo, através da substância química, como o mostrado aqui, conseguem-se alicerçar a fisiopatologia e a terapêutica. O mais importante é o êxito de cura para o paciente com a “Síndrome Tripolar”, pois além dos remédios, que são para o corpo físico, receberem estes conteúdos teóricos durante a consulta, no sentido de alimentar seu interior com forças que alavancam a auto-cura, a cura verdadeira.

 

2. SUMMARY

This paper aims to present the “Tripolar Syndrome”, to justify “anxiety, depression and panic” in the same clinical psychosomatic case. The trinity (or trimembration) reflects the animic manifestations, when they separate (or turned away) of the systems: “metabolic, rhythmic and neurossensorial”, respectively, and this could induce somatizations in higher spheres.

Only through the study of the human psyche and its relationship with the body through the chemical, as shown here, is possible to build the pathophysiology and therapy. The most important is the success of curing the patients with the “Syndrome Tripolar” because besides the drugs, that are for the physical body, they receive theoretical content during the consultation, to feed them with forces that leverage the self -cure, the real cure.

Key words: Anxiety, depression, panic attacks, psychosomatic manifestations, anthroposophic medicines, anthroposophic medicine.

 

3. NOTAS

 

1 Os tricíclicos inibem o cérebro e por isso provocam tontura, náusea, constipação, etc. Já os inibidores do MAO ajudam a fluir o impulso nervoso mais rapidamente. A fluoxetina evita a recaptação da serotonina e com isso leva à permanência dessa substância mais tempo em atividade nos tecidos corporais. Assim diz a “bula”. Mas a sua fórmula química mostra outra realidade: em uma ponta ela contém Nitrogênio, que excita o cérebro e na outra ponta, que é mais poderosa, ela inibe: possui 2 moléculas de benzeno e 3 de Flúor. Portanto o lado inibidor é mais potente. Por isso estudos recentes realizados na Suécia mostram que o uso excessivo da fluoxetina pode levar à falta da serotonina a nível cerebral - corporal. Ou seja, “o buraco pode ficar mais fundo do que se entrou”. Hoje se fala na duloxetina, que regularia os níveis de duas substâncias cerebrais: serotonina e adrenalina. O efeito promete ser duplamente mais potente, mas se pode correr o risco de “super excitar” o cérebro e depois cair na “super inibição” (ou super-depressão).

 

2 A partir desse ponto de vista, se poderá entender como age a maioria das substâncias medicamentosas, desde aquelas que estimulam até às outras que inibem uma função. Assim também se poderá entender uma composição química: a presença do nitrogênio (N) na molécula, por exemplo, tem efeito ativador sobre a alma para dentro do corpo, na dinâmica catabolizante simpática-adrenérgica. A adrenalina, por exemplo, tem apenas 1 nitrogênio, o que mostra a sua função fisiológica. Ao contrário, nos chamados entorpecentes, apesar de possuírem o nitrogênio na sua fórmula, este serve apenas para direcionar a substância ao cérebro; mas se somam outros “radicais” químicos (-R), vão fazer o papel inibitório sobre o cérebro. O objetivo final dos entorpecentes é impedir a atuação da alma dentro da corporeidade. Em vista disso as indicações precisam ser muito restritas e precisas, que só o médico pode prescrever.

 

3___PLATÃO, [s.d.], p.181.

 

4___ARISTÓTELES, 2006, p.57.

 

5___PLATÃO, [s.d.], p.140.

 

6___ARISTÓTELES, 1998, p.622.

 

7___GOETHE, 1977, p.112.

 

8___Vide site www.vivendasantanna.com.br o trabalho: Diagnóstico Psicossomático por meio da Pintura.

 

 

 

4. BIBLIOGRAFIA

 

ARISTÓTELES, Metafísica. 2 ed. Madrid : Gredos. 1998.

----------- De Anima. Rio de Janeiro : 34. 2006.

BOTT, V., Medicina antroposófica, uma ampliação da arte de curar, 2 ed. Juiz de Fora : ABR. 1984. 

GOETHE, Teoria de la Naturaleza. Trad. Diego S. Meca. Madrid : Tecnos. 1977.

HUSEMANN, F. e WOLFF, O., A imagem do homem como base da arte médica. São Paulo : Resenha Universitária, 1987. v. I, II e III.

LIEVEGOED, B., O Homem no Limiar, o desafio do Autodesenvolvimento. São Paulo : Antroposófica. 1999.

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